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Homilia de Dom Fernando Antônio Figueiredo

02.11.2016

Finados

Saudade sim, tristeza não!

   

 

 

Entre os primeiros cristãos, havia o costume de rezar pelos mortos e de celebrar a missa de corpo presente, como atestam os sacramentários romanos, por ocasião do falecimento de um deles. Quando isso não era possível, devido às perseguições, celebrava-se mais tarde, dando origem às missas de sétimo e trigésimo dia.

 

Nesse mesmo período, iniciou-se a prática, presente ainda em nossos dias, de fazer a memória dos mortos e dos vivos nas celebrações eucarísticas. Seus nomes eram então guardados em registros denominados Libri Vitae (Livros da Vida), posteriormente designados necrologias e obituários, passando das menções generalizadas às individuais. Com o passar do tempo, consolidou-se uma preocupação: a lembrança de todos os demais falecidos que, por algum motivo, não constavam nas listas. Para preencher esta lacuna, decidiu-se estabelecer um dia do ano para se rezar na intenção litúrgica de todos os que passaram desta vida. Por volta dos anos 1024 e 1033, foi escolhido, como dia consagrado à oração pública e universal por todos os falecidos, o dia 2 de novembro, o tão conhecido Dia de Finados, por ser o dia litúrgico que se segue à festa de Todos os Santos.

 

Desde o início, o conteúdo principal da celebração não era a morte, mas sim a fé na Ressurreição e, consequentemente, a esperança de se estar um dia perante Deus em sua morada. A celebração do dia de Finados antecipa a vida feliz e eterna em Deus. Agradece-se a Deus a existência dos antepassados e acende-se uma vela, proferindo uma oração, para recordar a luz da fé que nos iluminou, através de nossos pais, avós, parentes e amigos. Luz que não se extinguiu com a passagem deles para a eternidade de Deus, mas que se perpetua em nossos corações. As flores depositadas em suas sepulturas prenunciam o alegre reencontro na ressurreição dos mortos.

 

No Dia de Finados, rezamos não aos mortos, mas pelos mortos, pois todos, os vivos e falecidos, participam da comunhão dos Santos, comunhão que jamais se extingue. Nesse sentido, escreve S. Ambrósio: “Para não ser de novo a morte o fim da natureza humana, foi dada a nós a ressurreição dos mortos. Assim, refulge em nossos corpos a morte de Cristo, aquela ditosa pela qual o ser exterior é consumido e o homem interior é renovado. Desfaz-se a habitação terrena, e abre-se para nós a habitação celeste”. Podemos, então, dizer: sem perder nossa identidade, no encontro pessoal com Deus e com os irmãos, “ganhamos uma nova existência corporal enquanto nosso corpo terrestre é levado à sepultura”: é a transfiguração, que nos permite aguardar, na serena alegria da comunhão com Deus, a ressurreição final. Pois, “desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível” (Prefácio da Missa dos mortos).

 

Na realidade, a palavra morte, do latim mors, mortis, traz em geral, uma sensação de tristeza e de medo. O próprio Jesus, no Horto das Oliveiras, sentiu angústia e chegou a suar sangue. No entanto, Ele acolhe a morte e todo o sofrimento que ela comporta, oferecendo-a ao Pai em nosso favor. A oferta de sua vida realiza a nossa salvação e consolida a esperança da humanidade, de modo a enxugar as lágrimas do nosso coração e transformar a tristeza, sentida na hora da morte de um ente querido, em saudade. Por isso, na certeza de que os laços inquebrantáveis do amor eterno e fiel de Deus nos enlaçam e antecipam nosso reencontro no Reino dos Céus, com S. Gregório de Nazianzo, suplicamos: “Desde já, recebe-nos ó Pai, unidos a todos os que partem para aquela feliz e intérmina vida que está em Cristo Jesus”. Saudade sim, tristeza não!

 

 

 

 

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

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