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Homilia de Dom Fernando Antônio Figueiredo

16.11.2016

Lc 19,11-28 - Parábola dos talentos

 

     

Jerusalém está bem próxima. Jesus já antevê a cruz como o serviço supremo a ser realizado por Ele para a salvação da humanidade. Nessa situação de expectativa, compreende-se o fato de os discípulos pensarem que o Reino de Deus ia se manifestar imediatamente. Por isso, visando arrefecer o entusiasmo pela instauração próxima do Reino, Jesus lhes conta a parábola dos talentos. 

 

Um homem, de nobre origem, viaja para longe e distribui a dez de seus servos uma quantidade de bens materiais ou, no dizer bíblico, alguns talentos, que eles deverão restituir com lucro. A confiança depositada neles é grande, pois eles poderiam usar seu dinheiro como bem entendessem. Alguns são fiéis e multiplicam o que receberam, obtendo a devida recompensa. Mas um deles, que os guardou embrulhados num lenço e nada lucrou, tem como punição a transferência, até do que lhe tinha sido entregue, aos servidores fiéis. 

 

Segundo a parábola, cabe a cada um a responsabilidade de produzir mais ou perder tudo. Em termos espirituais, ou o discípulo avança em direção a Deus ou retrocede, pois a vida espiritual é compreendida como um combate incessante, denominado “luta invisível”, em que o fato de não produzir torna-se uma regressão. Os dons recebidos, sem ofuscar a beleza da mensagem evangélica, fecundam a vida humana em seu ser e agir, pois, sem destruir a liberdade, eles aperfeiçoam o ser humano, permitindo-lhe tornar-se mais plenamente ele mesmo por seu próprio esforço. S. Boaventura observa: “O dom de Deus, se ele for acolhido, torna o homem mestre dele e do universo. A criação não será um oceano de passividade. Ela é Deus infinitamente fecundo, engendrando filhos, que conduzem a Ele a criação inteira e a humanidade; não meras pedras inanimadas, mas membros vivos” (Étienne Gilson).

 

Esse crescimento ou ascensão, que converge para a grandeza indizível da vida em Deus, é gradual, e pressupõe construir, constantemente, sobre os talentos recebidos. O ponto de partida é a visão realista de si mesmo, pois, segundo S. Isaac, “aquele que conhece a si mesmo é maior do que aquele que viu os anjos”, e o princípio-chave, que o orienta, se expressa na fórmula: “Gratia supponit et perficit naturam”, que implica uma experiência direta do Criador, pois aperfeiçoada pela graça, a natureza cruza o portal da esperança para participar da  comunhão com Deus. Natureza e graça não se opõem, nem se justapõem, mas é pelo dom da graça que a natureza atinge, justamente, a sua perfeição: restaurado por Cristo, o ser humano vive, efetivamente, a “amizade com Deus”. 

 

 

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM               

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