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Homilias de Dom Fernando Antônio Figueiredo

29.11.2016

Lc 10,21-24 - Evangelho revelado aos simples

                         

 

 

 

Como relatam os Evangelhos, formando um grupo itinerante, os discípulos de Jesus experimentam cada dia Deus como um Pai que os guarda e cuida de suas necessidades cotidianas. Embora a experiência de Deus como Pai não fosse desconhecida, Israel não a empregava habitualmente em suas orações. Mesmo assim, a oração do Pai-Nosso não deixa de ficar profundamente gravada na memória dos discípulos, o que revela evidentemente a lembrança que eles tinham da atitude do Mestre em relação a Deus: modo confiante, simples e espontâneo, que permaneceu bem presente no coração deles. Torna-se, então, a prece central da comunidade cristã, que, segundo a Didaqué, pequeno catecismo escrito entre os anos 60 e 80, devia ser recitado três vezes ao dia. 

 

Após render graças ao Pai, que “escondeu estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelou aos pequeninos”, Jesus declara que “ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. Em seu sentido bíblico, o verbo conhecer exprime união interior tanto no pensar como no querer entre aquele que conhece e aquele que é conhecido, o que nos permite reconhecer a intimidade, a comunhão total e perfeita de Jesus com o Pai, fonte de vida para os membros da comunidade.

 

Este conhecimento do Pai é transmitido por Jesus a quem lhe apraz. Não de modo arbitrário, mas aos que se dispõem interiormente, pois a união com o Pai não se realiza independentemente da cooperação do homem. Apesar de se falar da proximidade pessoal de um Deus, que habita no meio do seu povo, os escribas e fariseus se prendiam a uma multiplicidade de prescrições e normas, que os levava a não entenderem as palavras de Jesus; em seu orgulho intelectual e frieza de coração, fechavam-se para as coisas de Deus e de seu Reino. Ao invés, esses segredos são revelados por Ele aos pequenos e humildes, que, na simplicidade, abrem seus corações a Deus e à sua vontade. Neles, cumpre-se a Bem-aventurança, na qual Jesus proclama felizes os puros de coração porque eles verão a Deus.    

 

Por conseguinte, ao ouvirem e acolherem as palavras de Jesus, os simples e pequenos são introduzidos na intimidade da vida de comunhão do Pai com o Filho, pois, no dizer de São Gregório de Nazianzo, “o Senhor se faz pobre; suporta a pobreza de minha carne para que eu alcance os tesouros de sua divindade. Ele tudo tem, de tudo se despoja; por um breve tempo se despoja mesmo de sua glória para que eu possa participar de sua plenitude”. Eis a maior riqueza comunicada ao ser humano pelo amor transbordante de Jesus: fazer parte da vida íntima do Pai, sendo misericordioso como Ele é misericordioso.

 

 

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

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