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Homilia de Dom Fernando Antônio Figueiredo

Lc 19, 1-10 - O chamado de Zaqueu

Jesus entra na cidade de Jericó. Uma multidão acotovela-se e se comprime ao seu redor. Um homem, chamado Zaqueu, de pequena estatura, publicano, recolhedor de impostos, deseja vê-lo, mas como não era benquisto pela população, que o via a serviço dos dominadores romanos e por causa de sua riqueza mal adquirida, ninguém lhe cede lugar. Movido pela curiosidade ou pelo desejo de receber algum dom espiritual, ele corre à frente e sobe numa árvore junto ao caminho, por onde Jesus devia passar.


Ao longo do Evangelho, S. Lucas testemunha o fato de Jesus se dirigir a todos, homens e mulheres, pobres e ricos, publicanos e pecadores. Agora, levantando os olhos, Ele vê aquele pequeno homem, muito rico, pendurado entre os galhos de um sicômoro, e diz-lhe: “Zaqueu, desce depressa, porque hoje devo hospedar-me em tua casa”. Jesus o chama pelo nome, para significar que Deus se recorda dele, com misericórdia. Mas, apesar de ter proposto aos seus seguidores o despojamento total, Ele não o condena por ser rico, o que leva S. Ambrósio a observar que “o mal não está nas riquezas, mas no fato de não usá-las bem”. A cena nos surpreende. É o próprio Jesus que se convida para ir à casa de Zaqueu, que ao acolhê-lo recebe o dom gratuito da justificação e a possibilidade de viver de acordo com o significado do seu nome, “o puro”


O relato do encontro com Zaqueu vem logo após o milagre da cura do cego de Jericó, o que sugere uma correlação entre ambos. Nesse sentido, escreve S. Ambrósio: “Zaqueu subiu ao sicômoro, o cego permanece à beira do caminho. O Senhor olha o cego com compaixão e engrandece o outro com o esplendor de sua visita; interroga um porque deseja curá-lo, vai à casa do outro, sem ter sido convidado, pois sabia quão grande era a recompensa para quem o hospedasse”. Nesse mesmo sentido, S. Agostinho afirma que “tendo acolhido Zaqueu no coração, Jesus condescendeu ser hóspede em sua casa para infundir-lhe a graça da salvação”.


Zaqueu nasce para uma vida nova. Porque o Inefável bateu à porta do seu coração, aquele que era desprezado pelo povo, acusado de ser um pecador perdido, torna-se “filho de Abraão”. Em resposta ao dom recebido, sem limitar-se à Lei, ele vai além do que ela exigia: dá a metade de seus bens aos pobres e usa a outra metade para reparar o dano causado aos que ele tinha defraudado. Gesto reparador que salvaria muitas regiões do mundo, onde existem tantos famintos e pessoas sem teto e sem trabalho. Efetivamente, uma certeza se nos impõe: Jesus quer se encontrar “hoje” conosco, para nos oferecer a salvação e nos levar a partilhar o que temos com os nossos semelhantes.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

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