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Bispos da Venezuela: deplorável a falta de alimentos e remédios


Migração forçada para sobreviver, subversão da ordem constitucional, crise alimentar e de saúde, protestos sufocados com o uso da força são alguns dos tópicos no centro da entrevista com Dom José Luis Azuaje Ayala, presidente da Conferência Episcopal Venezuelana.


Em primeiro lugar, Dom José Luis Azuaje Ayala falou do diálogo político venezuelano, que se desenvolvia na República Dominicana e que ficou paralisado, depois que a oposição se recusou a assinar o documento proposto pelo partido de governo em 7 de fevereiro.


Qual é o clima político neste momento na Venezuela e quais são suas previsões? R. - A paralisia do diálogo, ou melhor, a falta da assinatura do acordo proposto pelo governo através do ex-presidente Zapatero, não atendeu às expectativas da oposição que não viu atendidos os seus pedidos, ou seja: liberdade para prisioneiros políticos, readmissão à Assembleia Nacional, abertura de um canal humanitário e garantias do voto nas eleições. O acordo favorecia o governo e não o povo venezuelano. Era evidente que os termos desse acordo não eram destinados a resolver os problemas do país. Nós dissemos isso como bispos: devemos resolver os problemas humanitários, o problema da escassez de produtos de todos os tipos, principalmente alimentares e aqueles que têm a ver com o setor da saúde, a gigantesca inflação. Vendo que esses problemas não estavam entre os pontos do acordo, a oposição decidiu não assinar. Foi uma decisão, acho oportuna. Politicamente, há uma grande incerteza no país em ambos os lados.


Se o governo fosse às eleições sem qualquer candidato da oposição, seria ilegítimo, não seria reconhecido pela esmagadora maioria da comunidade internacional ou pelo povo venezuelano, enquanto a oposição deveria assumir o risco de uma maior pressão política, além dos custos políticos de seus líderes.


Quais são as consequências da escassez dos produtos básicos? R. - Em primeiro lugar, a desnutrição infantil aumentou. A Caritas Venezuela realizou um estudo que mostra uma situação alarmante: a porcentagem de crianças desnutridas é de 15%. Fala-se de 300 mil crianças que correm o risco de morrer de fome. Isso também afeta os idosos e os adultos que perderam peso porque não recebem os alimentos necessários para sua subsistência. As pessoas comem o que encontram e, infelizmente, vemos um número cada vez maior de pessoas que, todos os dias, revistam o lixo procurando coisas para comer. É uma realidade triste em um país que possui tantos recursos naturais. Nossos párocos que trabalham na pastoral social e na Caritas confirmam esta situação. Um fato grave e deplorável é a falta de medicamentos de todos os tipos. Os médicos prescrevem ao paciente nomes de diferentes remédios que eles deveriam então procurar, enquanto nossos hospitais não têm os meios para realizar exames clínicos. Se há um remédio que provavelmente se esgotará nas farmácias, é vendido a um preço elevado, devido ao custo imposto pelo exterior. É uma espiral que ameaça a vida dos pobres que são quase todos os venezuelanos. É um drama que grita ao céu e que não se consegue resolver. Outro aspecto doloroso é o drama vivido por milhões de pessoas que devem sair ao amanhecer, não para trabalhar, mas para fazer fila e ver quais produtos podem comprar para sua família. São pessoas em idade produtiva, em idade de trabalhar, que devem gastar 6 horas ou mais procurando comida ou remédios ou qualquer outro produto. Outro aspecto é a ruptura da unidade familiar: há milhões de pessoas que tiveram que emigrar para outros lugares tentando ajudar suas famílias, seus filhos, seu futuro. O resultado disso é ver como a Venezuela, que é um país jovem, está envelhecendo porque são os adultos que não conseguem emigrar.


É possível fechar as fronteiras devido ao aumento do fluxo migratório? R. - Cada país tem suas próprias leis e regulamentos. O desejo dos venezuelanos é manter as suas fronteiras abertas e pode haver uma migração organizada com valores éticos respeitando os direitos humanos. O problema reside no grande desespero da família venezuelana, que não encontra mais oportunidades de desenvolvimento no país. Nós, que no século passado recebemos milhões de pessoas de países em conflito, nunca teríamos imaginado viver essa experiência de migração forçada devido à situação de injustiça e crise econômica que privilegia o mundo da ilegalidade. Esta situação gera muita tristeza porque a emigrar são profissionais, pais e mães de famílias, também famílias inteiras, mas especialmente os jovens. Na nossa alma há um sentimento de tristeza e desespero.


O relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos publicado nos últimos dias denuncia prisões e demissões de prefeitos, governadores, deputados e opositores políticos por parte do governo. Os senhores bispos como enfrentam essa situação? R. - Nós enfrentamos esta situação com grande preocupação. A violação dos direitos humanos é sistemática. A repressão aumentou. Os protestos são vistos como um crime porque as autoridades aprovaram uma lei que se tornou um meio de retaliação e gera medo naqueles que não estão de acordo com o governo. Nossa Conferência Episcopal, através da Comissão Justiça e Paz e dos vicariatos de algumas dioceses, investigam os casos de violação dos direitos humanos, bem como promovem e protegem os mesmos direitos com particular atenção às vítimas. Quando um governo usa o poder para o poder, usa a força e a repressão para silenciar a população. Isso acontece no país de modo permanente.

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